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São Paulo,09 de novembro de 2009
Dez razões para viajar com calma
Tudo começou com o slow food, um movimento italiano que prega a calma à mesa, a preservação das tradições na cozinha e a prioridade aos ingredientes regionais. Não demorou para que o conceito se estendesse ao universo das viagens, para combater o equivalente turístico do fast food: o "maraturismo".
O slow travel condena viagens picadinhas, em que cada noite é passada num lugar diferente, e os dias são consumidos por visitas a cartões postais.
Em lugar disso, a filosofia slow propõe estadas mais longas num número menor de bases, de onde se pode explorar sossegadamente os arredores, indo além dos monumentos. Alugar apartamento (ou ficar em bed&breakfasts) e usar o transporte público também contribuem para uma experiência mais autêntica e intensa.
Ainda que você não consiga aderir inteiramente ao movimento, vale a pena considerar suas ideias e diminuir um pouco o passo - seja no próximo giro pela Europa, seja naquela temporada de praia do Nordeste. Veja alguns bons motivos:
1. É MAIS BARATO
O deslocamento é um dos fatores que mais encarecem uma viagem. Quanto mais paradas você inventa, mais elevada fica a média diária de gastos. Indo devagar, o seu escasso tempo e o seu precioso dinheiro são melhor aproveitados.
2. VOLTAR NÃO É PRECISO
A desculpa mais comum para fazer viagens picadinhas é a de que "um dia eu volto com calma". Só que uma coisa é voltar a um lugar porque você adorou. Outra, bastante diferente, é voltar porque não deu tempo para ver o que precisava. Faça o teste: a quantos lugares visitados em outras viagens você gostaria de voltar com calma? Se forem muitos, é porque você está viajando fast demais.
3. FÉRIAS, LEMBRA?
Acordar num horário civilizado (dormindo o tempo necessário para levantar de bom humor), não ter hora para deitar (e portanto poder aproveitar a noite sem neuras), esperar o tempo abrir para aí sim ir à praia mais distante (e fazer as melhores fotos): tudo isso é privilégio de quem viaja sem pressa.
4. ESPAÇO PARA SURPRESA
Todo lugar é muito mais do que os monumentos e atrações que você já conhecia antes de sair de casa. Mas se você vai com horário cronometrado, só tem tempo mesmo para o city tour. Use os chamados pontos turísticos apenas como indicação de percurso: a verdadeira viagem acontece no caminho entre os lugares manjados.
5. CHANCE PARA A INTUIÇÃO
As melhores lembranças de viagem são de coisas que você descobre sozinho, depois de algum tempo no lugar. E quanto mais bem informado você viaja, melhores serão essas descobertas - porque a sua intuição vai funcionar muito melhor.
6. VOCÊ VIRA EXPERT
A principal diferença entre um turista comum e um autor de guias é que o autor de guias fica mais tempo nos lugares do que o turista comum. Palavra de autor de guias.
7. APROVEITE A ESTRADA
Não dá para curtir a paisagem a 200 km por hora - até porque as autoestradas e trilhos rápidos não são nada panorâmicos. Se você vai viajar de carro por um trecho bonito, nunca divida a distância pelo limite de velocidade; é uma meta impossível de cumprir. Faça o contrário: sempre que possível, pegue a rota mais lenta. E pare ao menor indício de que vai valer a pena.
8. FÁBRICA DE INSIGHTS
É triste voltar para casa sem uma definição muito pessoal do lugar que visitou. Por isso, se você parar para pensar, vai ver que durante uma viagem é sempre gostoso parar para pensar.
9. SERENDIPITY
Sem equivalente em português, esta expressão designa o acaso sereno que nos abre os caminhos mais interessantes. Só quem tem tempo sobrando está sujeito a seus caprichos.
10. O LUXO DO TEMPO
Em viagem, tempo é mais do que dinheiro. Tempo é o maior dos luxos. É por isso que temos inveja de todos os vagabundos que encontramos pelo caminho e que não parecem ter hora para voltar. Eles não viajam com agendas tomadas por compromissos e horários cruéis, nem ouvem o tique-taque imaginário do taxímetro que nos assombra quando estamos fora de casa. Acredite: slow is beautiful. Pelo menos durante as férias, seja o senhor do seu tempo, e você vai se sentir rico.
O Estado de São Paulo, 08.11.2009

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